2048
Até hoje, só minhas turmas de Escrita Criativa haviam visto esse meu texto (ainda que numa versão anterior). E foi uma experiência sensacional discutir com elas a história! Trata-se de um conto distópico (e quem me conhece sabe o quanto amo esse gênero). Agora, eu o entrego para o mundo. Fiquem à vontade para me mandar mensagens dizendo o que acharam! P.S.: a intenção é que esse conto faça parte de um universo distópico maior (aguardem novidades...).
Adriano Santos
12/24/202511 min read


2048
Eu me lembro exatamente de onde estava quando explodiram o MASP.
Talvez tenha sido ali que realmente tive a noção do que estava acontecendo. Antes, sempre pensava que tudo aquilo ia parar em algum momento. Mas não depois do MASP. 451 pessoas morreram naquele dia, dentro do museu e no vão livre que já fora palco de tantas coisas bonitas. O atentado foi o último passo para que São Paulo se transformasse numa zona de guerra. As coisas já estavam a ponto de transbordar, com as tensões escalando rapidamente, vários grupos distintos defendendo sua verdade.
Naquela época, eu não lutei realmente.
Acho que meu único ato que podia se assemelhar a uma atitude de luta, até aquele momento, fora meu voto nas eleições - e após o Apagão era difícil que o resultado da votação fosse outro. Mas logo em seguida, ao ver como as coisas transcorriam e tudo o que estava em jogo, eu me ofereci. Era preciso defender o que estava correndo risco. Eu não podia ficar alheio à situação.
Olhando agora, acho que o desfecho da coisa toda foi rápido. Mas não o caminho que levou até ele. Bem lá atrás, quando a internet ficou ao alcance de todos, poucos perceberam o que poderia acontecer de ruim no futuro. A maioria olhou apenas para a promessa de democracia, de um espaço em que todos poderiam falar, compartilhar, construir juntos. Acho que novamente nos esquecemos de que nada tem apenas um lado. Ou talvez tenha sido nossa propensão de não olhar para algo que não queremos que exista. Queríamos saborear o otimismo, a liberdade, a chegada da tal “aldeia global”. Afinal, o monstro não está lá se não olhamos para ele, não é? Basta puxar o cobertor sobre as nossas cabeças.
- Para onde nos movemos agora, senhor? Estamos localizados exatamente sobre a Fratura.
Olhei para o Lopes a meu lado. O rigor na linguagem contrastava com o medo que emanava de seus gestos. Era muito jovem, talvez uns 16 anos. Inexperiente. Mas era bom ver que havia tanta gente nova disposta a lutar pelo que era correto. Ele estava certo. Estávamos prestes a entrar em uma das zonas mais perigosas de São Paulo. Mas não pude deixar de pensar que já tinha sido um dos locais mais visitados da cidade. Agora só havia escombros de um vermelho gasto, velho, fosco. Resquícios daquelas quatro grandes pilastras tão famosas.
“Seus batimentos cardíacos estão em 118 bpm. Adrenalina em 121 pg/ml e subindo.”
A voz no meu implante era suave. Eu a havia escolhido. Não queria conviver o tempo todo com algo que me deixasse irritado.
- Ciente - era obrigatório responder, para que a Matriz tivesse certeza de que entendi a informação e era capaz de lidar com a situação. Mas é claro que eu nem precisava da voz para saber que meu coração estava disparado. Pelo menos meu cérebro não precisaria de uma dose de Snap durante um bom tempo depois disso.
Eu olhei para a paisagem que se desenhava à minha frente, formada de restos de prédios tombados ocupando o declive.
- Vamos “mergulhar”, Lopes.
Se antes a avenida Paulista era símbolo de São Paulo - com sua vida cultural e econômica fervilhando - olhando lá de cima, do topo, para o resto da cidade, hoje ela era o exato limite entre duas áreas muito diferentes. Agora ela era uma “Fratura”. Na verdade, a principal delas. Ali naquele limite entre duas realidades, “mergulhar” significava descer para o outro lado da fronteira. Afinal, era lá que ela estava.
Nós havíamos subido pela rua Peixoto Gomide, para depois atravessar o que antes era o Parque Trianon. A vegetação que sobrara era coberta por uma densa poeira branca que formava uma espécie de véu sobre quase tudo. Agora, estávamos prestes a descer pela rua Plínio Figueiredo. Era mais seguro. A série de explosões que derrubaram o MASP também atingiu muitos prédios próximos, fazendo com que a estreita rua ficasse apinhada de entulhos diversos. Perfeito para que nos movimentássemos mais escondidos, por entre vigas, móveis, pilastras e tudo mais que nos servisse como cobertura. Continuar pela Peixoto Gomide nos deixaria bem mais expostos.
Respirei fundo, olhando para o que nos esperava.
Eu tinha que encontrar Júlia.
Assustada, encarei de novo a tela do smartphone, como se isso pudesse, de alguma maneira, interferir na realidade. Mas ainda estava lá.
26 de março de 2031. O Purgo Digital havia começado.
Eu tinha sido muito ingênua. Anos antes, na minha adolescência, vendo a humanidade passar por uma pandemia que matava milhões de pessoas no mundo todo, eu achava que aprenderíamos. Eu pensava que, sentindo a dor da distância, da perda, da falta do abraço, nós começaríamos a dar mais valor ao afeto, à empatia. Mas lembro que, numa conversa na cozinha de casa, uma tia minha olhou bem pra mim e disse: “Júlia, isso não vai acontecer. Se tem uma coisa que já ficou comprovada é que basta dar tempo ao ser humano pra que ele volte a cometer os mesmos erros.” Uma década depois, ali estava eu, vendo pelo celular meus perfis digitais desaparecendo e me dando conta de que eu estava vivendo uma espécie de nova versão de algum filme antigo de terror.
Peguei minha mala mais resistente e enchi com várias peças de roupas. Não as mais bonitas, e sim as mais úteis para o que eu teria de encarar dali em diante. Fui até a primeira gaveta da cômoda no quarto e enfiei o braço até o fundo. Achei as notas presas com elásticos. Na conta do banco, o mínimo para comprar pequenas coisas do dia a dia. Quase todo o dinheiro eu tinha retirado há algumas semanas, por segurança. Ao trancar a porta, olhei uma última vez para a entrada da nossa casa. Eu já tinha certeza de que não a veria mais. Enchi o tanque do carro no posto de sempre, paguei com algumas notas e saí. Não havia tanto tráfego quanto eu tinha previsto. Será que as pessoas ainda não percebiam o que estava acontecendo? Ou a quantidade de gente que concordava com tudo aquilo era muito maior do que eu imaginava? Não sabia qual opção me dava mais medo.
Foi na entrada do túnel perto do que havia sido a Pinacoteca do Estado que o trânsito parou. Uma barreira policial. Eram dezenas de viaturas da PM, com suas luzes piscantes brilhando no ar noturno, formando um estreito corredor por onde os veículos iam passando lentamente. Resolvi sair do carro para avaliar melhor a situação. Abri a porta e, com cuidado, levantei a cabeça para enxergar.
Ficou claro que eu não ia conseguir.
Eles liam o código de cada automóvel que passava por eles. E eu estava com meu próprio carro. Saberiam na hora quem eu sou.
Nas laterais do túnel, de frente para a parede e com as mãos na cabeça, talvez centenas de pessoas - imóveis, impotentes. Escutei um grito de dor, seguido por algum tipo de xingamento. E vi um grupo de policiais se reunindo em torno de algo que estava no chão. Um deles pareceu dar um chute. Outro grito de dor.
Atrás de mim, a fila continuava, impossível dar marcha à ré. Hora do plano B. Tomando o cuidado de ficar abaixada o tempo todo, peguei tudo o que consegui do carro - duas mochilas grandes - e comecei a me mover, agachada, para alcançar a via local. Eu já tinha planejado um trajeto a pé evitando as grandes avenidas. Rapidamente, alcancei uma rua secundária. Tirei o celular do bolso. Uma mensagem de Tales.
Já sabe o que fazer, Júlia. Deus nos ajude. Amo você.
Não sei exatamente o porquê, mas foi ali, lendo aquelas palavras, que a coisa toda desabou em cima das minhas costas. Talvez porque outra pessoa conhecida, além de mim, enxergava o que eu também enxergava. Uma espécie de comprovação de que tudo aquilo estava realmente acontecendo.
Eu sabia mesmo as coisas que tinha de fazer. Uma delas era não usar mais aquele celular. Principalmente por causa da minha mãe. Tomando o cuidado de ver se alguém estava me observando - afinal, o que eu menos queria era chamar algum tipo de atenção -, coloquei o aparelho no chão e dei um pisão com o máximo de força que pude, chutando-o, depois, para dentro de um bueiro. Havia acabado de jogar naquele buraco os meus contatos, minha agenda, meus jogos, minhas fotos, meus vídeos, meus textos, meus desejos, meus sonhos…
Caminhei por cerca de duas horas e meia. E agora olho minhas mãos tremendo e sinto a camiseta empapada de suor. Eu estou exatamente no lugar marcado, preparada para continuar com o plano, mas ainda não vi sinal de Tales. Não há mais o que fazer. Eu tenho de esperar por ele.
- Olá, Júlia.
- Olá, Tales. Você demorou, querido.
Ela não se parecia em nada com aquela que eu havia visto pela última vez tão cheia de vida. E de raiva. Agora, bem à minha frente, em meio aos destroços do que havia sido o saguão de um hotel, Júlia estava deitada de lado, em cima de uma poça de sangue.
E segurando um livro.
“Seus batimentos cardíacos estão em 135 bpm. Adrenalina em…”
Senti como se meu coração estivesse sendo apertado por duas mãos cruéis. Durante alguns segundos, fiquei ali, parado, sem saber o que dizer ou o que fazer.
- Capitão?
Olhei para Lopes - suas mãos tremendo e a arma em punho - como se só naquele momento eu percebesse que ele estava ali. Seu rosto me perguntava o que fazer. Voltei minha atenção para Júlia.
- Quanto tempo… - foi só o que consegui fazer sair de meus lábios. Sabia que não seria fácil, mas não esperava que eu fosse congelar dessa maneira.
- Muito tempo… - e abriu algo que lembrava vagamente o sorriso que há anos eu via apenas em minha memória.
Lutei, mas não consegui impedir a lágrima que teimosamente rolou em minha face direita. Tantas conversas cheias de planos, tantos momentos marcados por abraços apertados, sorvetes de creme em tardes quentes de domingo…
“É uma guerra. E uma guerra traz à tona o melhor e o pior de nós todos.”
- Onde ele está? - perguntei, tentando me recompor.
- Sabia que muitos de nós duvidavam de que ele tinha tanto valor assim? Mas vendo todo o esforço de vocês, vindo até aqui dessa maneira, arriscando tanto… Parece que acertamos um nervo exposto, não foi?
- Júlia, onde ele está? É só me dizer e tudo isso acaba.
- Você está feliz? - ela perguntou, e o rosto se contorceu numa careta de dor, a mão esquerda na barriga ensanguentada.
- Júlia…
- Você está feliz, Tales? - quase um grito agora.
- Você não entende.
- Sério? Depois desse tempo todo, é isso que você tem pra me dizer? - o olhar dela me engolia - Olhe ao seu redor, “capitão”. Eu é que não entendo o que está acontecendo? Todas as mortes que o seu pessoal provocou, o medo que espalhou? É o seu ego que está dizendo isso, incapaz de reconhecer que estava errado?
- Você tem noção de como estaríamos se nós não tivéssemos feito o que deveria ser feito lá atrás?
- Tenho. Ainda seríamos humanos.
- Não. Ainda estaríamos sem onde nos segurar, perdidos naquela realidade em que não podíamos confiar em nada! Nem o certo e o errado existiam mais! Como é que a humanidade poderia continuar daquele jeito?
O rosto dela se transformou numa máscara sem vida.
- Como ousa falar em confiança? - a frase saiu baixa, entredentes - Eu confiei em você!
- E eu realmente me apeguei a você! Mas…
- Você vê o rosto da minha mãe nos seus pesadelos?
- Júlia… Faz 17 anos.
Incontáveis segundos de silêncio se passaram enquanto ela não tirava seu olhar de mim.
- Sim… Você ainda a vê. E vai continuar vendo até o fim da sua vida de merda. Pensando nela todos os dias, assim como eu passei todos esses anos remoendo a ideia de que eu fui apenas uma isca.
Baixei os olhos para o livro que estava em suas mãos. De repente, senti vontade de saber qual era, mas não consegui ver o título.
- Que pena que você não conseguiria, não é? - ela disse, quase num sussurro.
- Conseguiria o quê?
- Ler.
A palavra saiu como um desafio. E pior: um desafio que já tinha uma vencedora. Ela sabia que não. Eu também. Todos sabíamos. Já há alguns anos era assim. Eu havia feito experimentos. E não tinha conseguido passar de 9 minutos em nenhum deles. O desespero sempre me fazia tatear pelo Snapper. Então, 5 segundos depois de usar o nebulizador, já estava tudo bem de novo.
- Mas o mais interessante - continuou ela - é que não se trata apenas da incapacidade do seu cérebro. É algo muito maior. Foi minha mãe que me disse. Vocês, extremistas, fanáticos, preconceituosos, não conseguem realmente saborear a Arte porque suas mentes limitadas não conseguem lidar com possibilidades. Vocês só enxergam o que querem enxergar. E a Arte nos coloca diante de um oceano de possibilidades. É muito pra cabeça de vocês.
Ela baixou os olhos para o livro em suas mãos.
- Sabe, hoje eu consegui terminar o último capítulo deste aqui.
Quando ela levantou a cabeça, uma lágrima traçava um caminho brilhante em seu rosto.
- E o final dele é lindo.
- Por quê? - eu perguntei sem ter clareza se eu queria saber sobre o motivo para ela lê-lo ou a razão para o desfecho ser lindo.
- Não chega a ser um final feliz, as coisas não se resolvem totalmente - ela deu um sorriso triste - A sociedade ainda é um buraco fundo cavado pela ignorância. A opressão ainda existe.
- Não me parece mesmo um desfecho bonito - eu disse, embora não tivesse certeza do que as palavras de Júlia significavam.
- Mas há esperança.
“Esperança”. Eu sabia seu significado, claro. Mas também havia em mim a sensação de que algo me escapava. Como se eu reconhecesse um objeto qualquer mas não conseguisse me lembrar para que ele servia.
Ela olhou pra mim.
- E há amor - ela completou e, aí, abriu aquele sorriso que eu conhecera num passado distante. E que quase me impedira de cumprir meu dever.
- Nós ainda temos amor. É uma das coisas que o nosso governo quer proteger!
- Não. O que vocês têm é uma imitação. Uma sombra. Vocês acabaram com o que realmente era amor e colocaram no lugar dele uma outra coisa. A palavra continua, mas o que vocês praticam como amor não passa de um combinado feito de ações pré-definidas, gestos vazios que têm mais a ver com controle do que com afeto. No fundo você sabe disso. A sua lágrima é prova disso. Há 17 anos, você viu o que é realmente afeto, carinho, amor… Você sabe. Você sentiu. Ou não?
Do meu lado, em silêncio, sem saber como agir no meio de tudo aquilo que ele mal entendia, Lopes me olhava, a arma inquieta e faminta ainda apontada para Júlia.
- Você vai morrer se eu não levá-la para ser tratada - disse eu ao vê-la contrair o rosto de dor novamente. A poça de sangue aumentava - Diga onde ele está e nós saímos daqui, Júlia.
- Então acho que é aqui que acaba tudo pra mim.
- Capitão, nós precisamos urgentemente da informação! É de vital importância que...
- Cala a boca, Lopes.
- É agora, Tales. O que você vai fazer?
Era um daqueles momentos definitivos na vida. Ou definidores. Meu desejo era que o tempo parasse para que eu pudesse colocar tudo em ordem dentro de mim. Queria que acontecesse o que dizem sobre o instante da morte: que toda a nossa vida passa diante dos olhos. Mas não foi desse jeito naquele momento. Ainda assim, fiz uma última tentativa de congelar a realidade: fechei os olhos.
- Capitão…?
“Seus batimentos cardíacos estão em 141 bpm. Ponto-limite se aproximando.”
- Tales…?

