Ecos de Sócrates
4/19/20263 min read


Era uma reportagem sobre livrarias da cidade de São Paulo, em um telejornal da hora do almoço. Aliás, foi muito bom saber que há um movimento de livrarias pequenas e médias surgindo e conquistando adeptos - como não adorar esse ambiente de livros, café, conhecimento e imaginação?
Até que surge na tela uma garotinha de uns 8 ou 9 anos de idade, com um livro em mãos. A repórter vai até ela e pergunta: “o que você aprendeu lendo esse livro?” E a menina responde: “aprendi que não sei muita coisa sobre peixes.”
Olha que lindeza de resposta! Típica do oceano infantil, repleto de espaço disponível para a beleza, a curiosidade, o novo…
Já nós, adultos, com nossas agendas e nossa mente cheias de coisas, não deixamos espaço para aquilo que nos é essencial. Aliás, vamos no caminho contrário: mergulhamos nesse rio tentador das informações e nos banhamos com a ilusão de que sabemos cada vez mais. E, se sabemos cada vez mais, podemos espalhar nossa arrogância, atirando opiniões sobre tudo e todos. Contestando. Destruindo. Pensamos que sabemos - o pior tipo de ignorante.
Para quem trabalha com educação, fica muito claro que estamos vivendo um momento em que o processo de realmente adquirir e construir conhecimento está desvalorizado. Muitos de nossos jovens enxergam apenas um futuro em que fazem dinheiro de maneira rápida. Então, para que estudar? O sabor de conquistar algo por meio do esforço está sendo deixado de lado. O gosto de saber não atrai muito.
Mas não foi sempre assim? Não foi sempre essa a reclamação de professores no decorrer dos anos?
Acho que não exatamente. Hoje, a internet potencializou muita coisa, para o mal e para o bem. Nossa atenção vai ficando cada vez mais limitada. Jovens precisam de um vídeo com a tela dividida para que “não percam a atenção”. Mesmo sendo um vídeo de dois minutos…
Então, é isso: lemos menos, apreciamos menos as coisas (porque apreciar exige tempo), refletimos menos. E, ainda assim, achamos que conhecemos e sabemos mais. Seguros dentro de nossas certezas, não abrimos espaço para experienciar, ressignificar. Fica mais fácil julgar - e condenar - o outro. Cancelamos. Não ouvimos realmente. Não dialogamos.
Diferentes de Ícaro, voamos em direção a um simulacro de Sol. Melhor: nem estamos voando. Pés grudados ao chão, deixamos nossa mente nos envolver na fantasia do voo, numa viagem inexistente. Se pudéssemos abrir os olhos, veríamos que ainda estamos no quintal de casa, talvez nos afundando cada vez mais no solo movediço feito de camadas e mais camadas de informações, pseudoinformações e armadilhas.
Mas há aquela garotinha.
Que conseguiu colocar, de maneira simples e poderosa, a grande verdade sobre o processo de aprender: quanto mais sabemos, mais percebemos que não sabemos. E como isso é belo! Ecos de Sócrates e seu “só sei que nada sei”.
Chega a ser irônico que, numa época em que o saber está bem mais ao alcance de nossas mãos, temos tanta gente que não vê sentido em estudar, em aprender.
É uma pena. Por muitos motivos.
A beleza do cérebro mudando, nosso olhar sobre o mundo se transformando, o nosso eu antigo ficando para trás para renascermos renovados…
Aprender…
Em seu livro Por que ler os clássicos, Italo Calvino, citando E.M. Cioran, escreve:
“Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntaram-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer’”.
Que a criança do noticiário, uma Alice de nosso mundo real, continue aprendendo por todo o resto de sua vida.

